sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A vizinha

Hoje faço aniversário, e de presente recebi uma nova vizinha. A princesa chama-se Maria e sua rainha Claudete. Quando o caminhão de mudanças chegou foi uma alegria só, era uma vizinhança que recepcionava bem os novos moradores, apesar dos pesares. O caminhão foi aberto e algumas pessoas ajudaram a descarregar e mobiliar a casa alugada. Maria tinha uns 17 anos, com seu cachorrinho no colo, um vira-lata cor de pele, de rabo fino e cara de bobo; bem simpático, até! Não eram muitos móveis, mas aquela família trazia nos olhos uma grande bagagem.
Os olhos são as janelas da alma, quem consegue penetrar um olhar pode ter as palavras certas na ponta da língua, o que evita muitos erros posteriores. Decifrar um olhar vale tanto quanto uma jóia rara, ainda mais, talvez, porque isso o dinheiro também não compra. Nos olhos estão a melhor proposta de negócio, o desejo do próximo, a inveja, o ódio, e o amor. O brilho nos olhos é único em cada pessoa, pena que muitos não dêem valor a esse minucioso detalhe.
Maria tem um irmão chamado Fernando, esse era a figura mais estranha da família, tava na cara que era um viciado em drogas. Tudo de bom que Maria transmitia, da meiguice à tranqüilidade, o maluco transmitia de ruim.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Campeão Continental

No começo ninguém entendia muito bem o que era esse esporte chamado boxe. De repente, os mais velhos começaram a falar o tempo inteiro na porta dos botecos sobre o Marrom e que ele provavelmente chegaria a ser como o Eder Jofre, o grande campeão de boxe, e daria o maior orgulho para a comunidade do Rosa.
Alguns o chamavam de Clarão, outros Marrom, como dá pra perceber o cara era um negão de mais ou menos um metro e oitenta, um garotão que começou a treinar na academia que ficava em cima do açougue no alto do Jardim das Rosas. Todos conheciam o Marrom, pelo menos de ouvir falar, ele também freqüentava os Bambas, e trocava idéia com todo mundo de boa. O cara era humilde pra caramba. Por ainda ser muito pivete, eu não tenho muitas lembranças dele como pessoa, mas não podia deixar de falar sobre ele.
O ano do título foi, se não me engano, 89 ou 90, ganhou o cinturão de Campeão Continental, e todos começaram a espalhar a notícia.
- O Marrom é campeão, galera!
A molecada como sempre só ganhou mais um ídolo, o negócio era lutar, e ganhar dinheiro para ficar rico igual a Marrom.
Depois do título vieram as reportagens na tevê, em diversos programas e jornais, fotos nos jornais, era a hora do sucesso. O negão ganhou a fama e se tornou mais conhecido do que nunca, o cara acabou largando a mulher e os filhos. Aí, a ficha dele ficou um pouco queimada, afinal, ninguém achava justo tal coisa, mas como sempre, cada um sabe o que faz!
Como toda subida, sempre surge a hora da descida, mas o B.O., é que no boxe a descida tem queda brusca, sem tempo de raciocínio. De repente o grande Marrom foi à lona, era a disputa de mais um título, e o cara que o derrubou ainda hoje é famoso, o tal Ezequiel Paixão apagou o Clarão em todos os sentidos.
Aquele dia foi muito triste, todos comentaram, os jornais noticiaram, e a família entrou em desespero. Clarão foi parar na UTI, estava em coma, e o negócio foi bravo, no auge da carreira uma porrada na cabeça quase matou o Clarão.
Mesmo depois de longo tempo, tratamentos e reabilitação, o Marrom nunca mais foi o mesmo, acho que ele ficou com seqüelas e parou de treinar. Não sei o que é dele hoje, mas ninguém nunca mais ouviu sobre ele. A galera mais jovem nem sabe que no Jardim das Rosas também nasceu um campeão.
Essa é a parte chata, leitor, muitas vezes as nossas glórias não são eternas, talvez porque não tenham sido tão importantes. São milhares de estrelas que se acendem e se apagam, e depois somos obrigados a conviver com a escuridão, e olhar fotos velhas recordando bons momentos vividos e conviver com o fantasma do esquecimento, pensar que jamais poderão continuar do ponto parado. A história do Marrom foi assim, qualquer hora vou procurar saber o que o campeão de 89 faz da vida.
O clarão nunca mais acendeu.

domingo, 21 de junho de 2009

Senhor tempo bom


O tempo vai passando e, com exceção da Vera Fisher, todos estamos envelhecendo muito rápido, pelo menos aqui na periferia, onde os produtos de rejuvenescimento são privilégios de quem deixa de comer para comprar o tal Renew. As marcas da idade são muito visíveis em nossos rostos, alguns aparentam muito mais idade do que realmente têm. Mas a forma mais banal que posso perceber como o tempo está voando é como expressões, ditados populares, brincadeiras, jogos, desenhos animados da tevê, músicas que eram tão maravilhosas, e até doces que vendiam em qualquer esquina ficaram tão distantes de mim, muitos já desapareceram das prateleiras.
Como já disse para você, sou mesmo uma criança dos anos 80, e como naquela época criança era criança por muito mais tempo, ainda tive muitos privilégios de criança até meados da década de 90, e descobri, por meio de reportagens na tevê, que essa minha geração, em todos os cantos do país, sente muita saudade dessa época e gosta de reviver esses momentos com os amigos sempre que surge uma oportunidade. Talvez por ser uma época na qual a fantasia e a verdadeira infância estivessem muito presentes. Não vejo adultos de outras épocas querendo reviver a infância. Atualmente as crianças querem ser adultos muito rápido e com ajuda dos pais são modelos, executivos, cientistas ainda muito pequenos. Adultos em miniatura, eu diria.
Andei formulando uma lista do que de melhor existiu numa época de diversões diárias e muitos sonhos. Digo isso porque muitas vezes me pego relembrando fatos que eu contava para os amigos acreditando ser verdade, mas na real não passavam de sonhos. Após um dia de aventura eu tinha normalmente uma noite de aventura com muito mais perigo, e conhecia lugares que nunca freqüentei ou havia visto (garotinho de mente fértil). Não sei se iludidos, mas éramos felizes.
Ricardo cruzou o portão da minha casa outro dia e resolvi compartilhar as lembranças. - Isso soa como um disco arranhado, Cassiano.
- Pior é você, Ricardo, que parece uma vitrola quebrada quando começa a falar.
Isso não deve ter significado nenhum para algumas crianças e adolescentes do século 21, uma vez que todos possuem som com CD, e o velho vinil tornou-se peça de colecionador. Mamãe ainda possui uns raros do Antonio Marcos, José Ribeiro, Cascatinha, e outros do gênero. O negócio agora é curtir disqueman em vez de walkman. Por pouco tempo também. A tecnologia tornou-se muito rápida na última década, pois no mercado já está saindo um tal de MP3, onde cabem muitas músicas e é dez vezes menor que o disqueman.
No Natal a molecada se reunia na rua e ficava sonhando com os presentes que eram anunciados na tevê. Todos faziam sua lista: Caloi 10, Monark e a Cecizinha com cestinha eram os maiores sonhos de consumo de meninos e meninas. Eu aguardo a minha Caloi 10 até hoje, foi prometida quando eu fizesse 12 anos. (Na real, todos esperavam, mas no fundo sabiam que não ganhariam mesmo, eram só promessas que os pais faziam para que fôssemos bem na escola e não levássemos bomba no fim do ano. Ser repetente naquela época era sinal de surra de cinta.)
Tevê com 13 canais em que só funcionavam sete, preto-e-branco, com estabilizador para assistir aos programas. A garotada do século 21 só poderá ver no museu, ou se for lá em casa, pois eu ainda tenho essa relíquia que quando ia pifar começava com as faixas pretas que cobriam as pernas das personagens da novela até ser levada para o conserto.
As musas da galerinha já passam dos 30. Luciana Vendramini, Letícia Spiler, Andréia Sorvetão, foram as Paquitas que me fizeram sonhar ser Paquito só para estar do lado delas; e a Simony do Balão Mágico já é mãe de duas crianças.
Estas crianças loucas por Pokémon não tiveram o gosto de calçar um legítimo Bamba ou Kichute do Rambo (personagem que todo moleque valente queria ser). Tinha a Conga, que era feia para burro, o Montreal, que o Silvio Santos sorteava nos programas, mas o luxo mesmo era o tal Le Cheval com luz que acendia no solado quando pisava.
As mães eram boas costureiras, o molde do short curto e camisa de botão era sempre o mesmo. A molecada parecia de uniforme, usavam até a Havaiana azul, adereço típico dos pobres, pois era a mais barata (essa mesma que hoje é sinal de status, exportada pelo mundo afora, e que custa muito mais caro).
Os automóveis figuravam nas mentes dos meninos. Fórmula 1 era tradicional nos domingos de manhã, Airton Senna era o rei. Meu primeiro sonho de consumo nessa área foi um Opala azul metálico com rodas cromadas, depois veio o Gol GTS 1.8 preto, e depois o Escort XR3, vermelho.
- Tá lembrado, Cassiano, como eram os meus desenhos? Você e a galera dentro do meu Opala turbinado, eu fazia as curvas das estradas de Santos nos desenhos livres da aula de Educação Artística.
- Claro que me lembro, você curtia Roberto Carlos só por causa dessa música.
- Mó saudade, hein?!
Até parece que Michael Jackson sempre foi essa caveira branca ambulante que é hoje. No auge do sucesso, cantando Thriller, todas as crianças queriam dançar como ele, e é a imagem do moleque preto com ginga e estilo que ficou na memória de todos nós.
Agora, no cinema, não houve até hoje terror maior do que o Exorcista, Fred Krugger em Sexta-Feira 13 ou Colheita Maldita. Era assistir a um desses e ter pesadelos a semana toda. Ou éramos mais medrosos ou os filmes eram realmente aterrorizantes!
Assistir a Os Trapalhões antes do Fantástico era de lei. Semana do presidente antes do Show de Calouros era terrível, coisa mais chata não existia. As férias eram recheadas com Sessão da Tarde Especial, com filmes dos Trapalhões, da Xuxa, Rambo e Rock, que tornaram o Silvester Stalone O Cara. Também havia os especiais de Natal, sem falar no Magaiver, o cara que tinha solução para tudo. Goonies eram a aventura que toda criança sonhava em viver e ET era o bichinho que todos queriam que caísse no quarto.
Mas também tinha os seriados que nos prendiam por algumas horas do dia. Armação Ilimitada, Vila Sézamo, Perdidos no Espaço, Elo Perdido, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Os Monstros, Punk - A Levada da Breca, e Chaves e Chapolim, que romperam as barreiras e são sucesso até hoje.
“Ninguém tem paciência comigo!” “Diz que sim, diz que sim, vai!” “Tesouro, não se misture com essa gentalha!”. Seu Madruga era o melhor.
- Impressionante como, mesmo vendo tanta coisa na tevê, ainda encontrávamos tempo para brincar. As horas pareciam ser muito mais longas na rua, para inventarmos tantas brincadeiras diferentes e ainda bater papo no fim da tarde! Quer dizer, contar lorota!
- Você era o maior colecionador de minigarrafinhas de refrigerante, tinha umas com logotipo escrito em árabe, russo, japonês, e não deixava ninguém colocar a mão!
- Puta, eu era mó egoísta, né, Cassiano? Tá lembrado daquele vizinho que a mãe trabalhava para bacana, e sempre trazia brinquedos maneiros para ele, e depois de brincar um pouco jogavam fora ainda em ótimo estado!
- E agente sempre ficava na espreita no muro, para ser os primeiros a escolher no lixo, ahahah! Os meus melhores brinquedos vieram daquele lixo!
- Divertido mesmo eram as festinhas de aniversário daquela casa, eu dançava lambada muito bem, lembra do concurso que participei na festa e até ganhei uma sacola de prêmios?
- Lembro mesmo era você dançando ao som dos Menudos, “Canta, dança, sem parar, não se reprima, não se reprima, uol, uol”!
- Confessa, Cassiano, você era fã dos caras, até lembra a letra direitinho!
- “Dá pra mim, o teu amor, dá pra mim, porque eu te quero!” Do Polegar, tá lembrado dessa? Você cantava para as minas quando queria xavecar, e quando eu fui tentar te imitar e levei um tapão na cara, da Marcinha!
- Isso era só para os bons! Ahaha!
- Me lembro que nessa festa tinha gincana com brincadeiras, e um maluco metido a ladrão estourou a bexiga da Nay para que ela ganhasse a brincadeira e o saco de doces. Ela ganhou, e saiu correndo para casa feliz da vida com tantos doces, e o maluco me ameaçou de morte (ele tinha um buraco de bala no queixo e disse que matar um baba ovo não dava remorso nele), e que se eu não trouxesse um Lanche do Fofão ia amanhecer com a boca cheia de formiga! Agora me diz se tem cabimento isso hoje, um ladrãozinho de lanche de crianças! A Nay reclamou porque não queria perder o doce que já teria de dividir com os irmãos, mas depois do meu apelo emocionado (chorava e tremia como um doido) cedeu o Mirabel! (Agora tive vontade de rir... essa foi de lascar!)
- E nas paradas do sucesso: Dominó, New Kids on the Block, Tremendo, com todas as meninas chorando e escrevendo cartas quilométricas para o Gugu no quadro sonho maluco do Viva a noite, para realizar o sonho de conhecer os caras!!
- Lembra da aposta para descobrir quem matou Odete Roittman?
- “Embarque neste carrossel, onde o mundo faz de conta a terra é quase o céu”. O que te lembra essa melodia?
- Ouvir a metros de casa no fim da tarde, abandonar as brincadeiras e todos se entreolharem e dizer: “Começou Carrossel!” E correr para frente da tevê para chorar com as maldades que a Maria Joaquina fazia com o pobre do Cirilo.
- E Pantanal! A gente era louco para ver a Juma sem roupa!
- Febre mesmo foi a dos seriados japoneses. Mandraque, Batman, Homem-Aranha, Super-Homem, Thor, Mulher Maravilha e outros heróis americanos ficaram esquecidos por um tempo, o negócio era curtir Jaspion, Giraya, Ultraman e Chageman. A indústria novamente lucrou muito com brinquedos e a imagem dos heróis em tudo que podiam vender!!
- Bozo era o Rei, o preferido de todos e também muito requisitado nas duas décadas (trocando de ator sempre, é claro): “Cantem comigo molecada: chuveiro, chuveiro não molha o meu cabelo, chuveiro, chuveiro não faz assim comigo, chuveiro, chuveiro não molha o meu amigo!!” Papai Papudo, Bozolina. Vovó Mafalda (que depois descobrimos ser um homem, que tristeza e decepção pra molecada!) Cantava muito animada a música das caveiras, tumbalacatumba tumba tá! Como era boa a batalha naval.
- Aprendi a desenhar com Daniel Azulay, mano, altos ensinamentos na tevê, tá ligado no Bambalalão e no Catavento? Não perdia esses também.
- Eu tinha medo do Fofão, diziam que havia uma faca na barriga do boneco!
- Lendas! A Boneca da Xuxa também não era demoníaca! Quem inventava essas coisas, hein?!!
- Tinha uns seriados maneiros, só que eram mais para os adultos, A Gata e o Rato, Manimal, Hulk, Casal 20, As Panteras.
- Desenhos animados não tem para ninguém, só quem pôde desfrutar daquelas obras-primas foi nossa década, a menos que alguém tenha piedade e resolva reprisar para essas crianças. Acho que elas estão perdidas com esses desenhos quadrados que lotam a tevê hoje.
- Ursinhos Gummys, Caverna do Dragão, Pequeno Príncipe, Thundercats, Super-Amigos...
- Clássicos, né, Cassiano! Pantera Cor-deRosa, Poli Position, Corrida Maluca, Capitão Caverna, Ursinhos Carinhosos, Gato Félix, A turma do Manda chuva, Super Mouse, Popous, Luluzinha, Smurfs, Heman...
- Esse virou até música com o Trem da Alegria. E a She-ha, Jonny Quest, Ferrorama, Nossa Turma, Pica-Pau, Os Smonkeis, Jenny e as Desajustadas. Os Animais do Bosque dos Vinténs era um clássico da tevê cultura. Pobres animais! Eu e meus irmãos até chorávamos porque em cada episódio morria um bicho tentando chegar no parque da garça branca, o paraíso deles, a raposa, o texugo, a doninha, os ratos, os ouriços, a cobra, o sapo, a toupeira...
- Que memória a sua Cassiano! Cara, assim você me supera, seu fanático! Lembra do Praga, o Dengue, no Show da Xuxa, você adorava cantar aquela...Como era mesmo... Doce, doce, doce, a vida é um doce, vida é mel...
- Que mentira, Rico! Você era o maior pilantra, o capeta em forma de gente, colocava casa de abelha na ponta do cabo de vassoura e depois tentava jogar em cima das meninas cantando essa música.
- Ahahaha! Que faziam o maior escândalo e saíam correndo!
- E você atrás, doce, doce, doce; o capeta em forma de guri, cantava o Sérgio Malandro especialmente para você! Certa vez você desenhou a Formiga Atômica na lousa, e disse para todos que era a professora Valdete, ela te colocou de castigo. A sala inteira disparou em gargalhadas, quando você ficou atrás da porta com o chapéu de burro e imitou o Pica-Pau, rebolando e colocando chifrinhos em sua cabeça sem dar a menor importância para o castigo.
- Colecionador de gibi e álbum de figurinha!!! Tio Patinhas (sempre quis ser ele só para nadar no dinheiro), He-Man, Capitão Marvel.
- Viciado, minha irmã tinha as do Amor Perfeito, e de todas as novelas, Vamp, Que Rei Sou Eu, Roque Santeiro, Carrossel!! Roubava as moedas do pão para continuar o vício, depois trocava as repetidas e jogava bafo, e sempre ganhava. Aí, Cassiano eu já era foda naquela época, hein?!
- E os brinquedos que nunca chegaram nas nossas mãos, só pela tevê, mesmo!! Autorama, Comandos em Ação, Playmobil, Forte Apache, Genius, Pogo Ball, Banco Imobiliário, Jogo da Vida!!
- Dama a gente tinha, né, eu desenhei uma no sulfite e colei na cartolina, e as peças eram de pedras vermelhas e pedras brancas, o futebol de botão também, com pregos numa folha de madeira grande, pedrinhas e palheta de madeira!
- O jogo de vareta fui eu que fiz!! Palito usado de churrasco pintado de guache!! Ahaha, que eca, hein! Mas divertiu da mesma forma que um original.
- Bom mesmo era brincar na rua, não precisava ter trabalho com os brinquedos. Alerta, mamãe da rua, amarelinha, barra manteiga, barreira, estrela nova sela, polícia e ladrão, esconde-esconde, queimada...
- Bolinha de gude, gato mia, rouba bandeira, ajuda-ajuda, vivo ou morto, baliza, cabo de guerra, caiu no poço...
- Essa eu adorava, pêra, uva, maçã ou salada mista: passeio no bosque, abraço, beijo no rosto, ou tudo junto mais um beijo na boca. Dei meu primeiro beijo numa dessas. Daquele jeito. Escolhia a menina, prometia algo pro cara que tampava o olho e depois esperava o toque para beijar a menina certa!!
- Moleque malandro!!
-Moleques malandros, porque você também tentava fazer isso, mas tinha azar e só pegava as fubangas!! Mas a melhor das brincadeiras eram as peladas!! Eu era um craque, artilheiro de mão cheia, era sempre gooooooooooooollllllllllll, do Ricoooo!!! “Bota na seleção”, todos gritavam!!
Até que tivemos uma puta infância, em Cassiano!! Quanta coisa divertida, eu vou tentar lembrar de tudo isso para contar para os meus filhos, e vou ensinar todas as brincadeiras que a gente curtiu!
-Tá pensando em sair da estrada, Rico??
-Ainda não, mas daqui há uns 3 anos eu acho que me aposento, a correria tá foda!! Eu terei filhos e vou morar bem longe desta podreira aqui!
- Que é, isso irmão, cuspindo no prato que comeu?!
-Sem moral para cima de mim, Cassiano! Nesse prato quem colocou a comida foi a minha mãe e muitas vezes eu, se não, tinha morrido de fome! Isso aqui nunca mais será como fora quando éramos crianças, tudo está poluído, os rios não passam de corgos imundos, que sempre que chove demais inundam nossas casas. Nem as crianças de hoje são parecidas com o que fomos, já nascem com a malícia, aprendem a falar mamãe, nem sempre papai, e depois porra, caralho, ensinado pelos outros irmãos e o próprios pais, é claro!!
- Eu só fui soltar um palavrão desses, mesmo, depois dos 11 anos, eu acho!! E mesmo assim quando soltei perto da dona Jacinta, levei um tapa tão forte na boca, que até hoje eu me seguro para não pronunciar perto dela!!
- Então, cara, eu não quero isso para os meus filhos, com eles o negócio vai ser bem diferente, vão ter que andar na linha!!
No Jardim das Rosas passamos nossa infância batendo a chepa na escola, muitas vezes por falta de comida em casa, soltando capucheta e as pipas mais invocadas da região; rodando pião para eleger os melhores, bolinha de gude, sendo crianças em um jardim da zona sul, mas acabou!!
***

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O tempo não para

A vida passa
É o que dizemos quando voltamos a nossas origens
A vida passa e descobrimos que não fizemos nada
Planejamos, sonhamos
E não fizemos nada.
Olhamos no espelho
E temos uma grande descoberta
Viramos adultos.
E em todo momento
Toda a oportunidade
Toda reunião com aquele velho grupo de amigos
Terminamos agindo como crianças.
Com velhas cantigas e brincadeiras
Que marcaram a nossa infância
As atitudes que nos tornavam maiorais
As lembranças
A saudade
E o tempo não parou.
E o tempo não para.
O destino não trouxe nossos sonhos
O passarinho não canta como antes
As cores do arco-íris
Não são como outrora
A vida não mais encanta.
São sonhos que deixam de existir
É a saudade que teima em vir.
São palavras que dizemos
Quando tudo parece não ir para frente
Eu era feliz e não sabia!
Mas agora vais reclamar, senhor saudosista?
O passado só é importante quando fica distante
Derrame a saudade
E bola para frente
Essa felicidade não é mais presente
Marcar esses momentos
Com bons sentimentos
O tempo não para
E não vale a pena se lamentar amanhã
Porque hoje já é passado
Mas quem sabe seremos lembrados
Talvez como simples soldados
Que em batalhas foram derrotados
Ficando na lembrança de seus amados.
Num futuro
Talvez alguém tenha saudade
Assim como agora eu tenho saudade
Saudade daqueles que se foram
Talvez, sempre talvez...

***

O Tempo não para

Subi no alto do morro de onde consigo ver toda a favela, é estranho como as coisas são diferentes daqui de cima. Tenho aquela sensação infantil de ser o dono do mundo. Há momentos em que o silêncio domina toda a área e dá para ouvir as crianças brincando nos becos e alguns palavrões sendo exclamados constantemente. Nas vielas da periferia é fácil ver uma criança aprender um palavrão antes de qualquer outra palavra. Os becos são iluminados por gatos feitos nos postes, já são 9 horas da noite e as crianças começam a brincar de polícia e ladrão, difícil é achar quem queira ser a polícia, afinal, eles não causam boa impressão quando marcam presença na quebrada!
A morte não é mais triste para essas crianças, elas acham normal morrer de tiro, fazem apenas uma cara feia ou tampam a boca quando vêem mais um corpo estendido. Os tiroteios são comuns, muitos já morreram ou tiveram a sorte de apenas serem atingidos por uma bala perdida sem maiores conseqüências (dizer que é sorte chega a ser irônico, porém é o que dizem as pessoas quando a bala é de raspão).
Toda a favela iluminada – que lindo! Vejo alguns moleques descendo a rua principal de carrinho de rolimã sem se preocuparem com os carros que possam cruzar o caminho. Daí me lembro de quando eu fazia o mesmo com os Cavaleiros do Apocalipse. A diversão era fácil de construir, todos os moleques da quebrada tinham seu próprio carro de Fórmula 1. Apostávamos corrida, mas o legal era desfilar pelo bairro com o carro personalizado debaixo do braço, o meu tinha um desenho dos Caça-Fantasmas e a frente pintada de azul. Era o máximo, meu maior orgulho.
Não sabíamos o que era o mundo e os países; Para a galerinha daquela comunidade o mundo se limitava ao bairro. Guerras, a gente via raramente, mas só as do bairro mesmo, era quando a imaginação muito fértil logo transformava a história num filme de aventura passageiro. Sonhava algumas noites seguidas, discutia com os Cavaleiros sobre o assunto, mas depois tudo passava!
Vou confessar uma coisa que hoje dou muitas risadas quando lembro: coisa de criança, mas na época eu tinha uma certeza muito grande. Eu acreditava que era um ser diferente, único no mundo, como um extraterrestre, e por isso todas as coisas aconteciam em torno de mim, para mim, e deviam influenciar somente as coisas sobre mim. Eu acreditava ser uma espécie de rei e ficava lendo o pensamento das pessoas, achava que era superior a todas elas, que meus pensamentos eram diferentes e era por isso que eu achava tantas coisas erradas, tanta desigualdade, tanta gente precisando das coisas, mas ninguém via, afinal nada mudava, e somente eu enxergava isso. Sentiu a idéia do pivete?
Depois de um tempo descobrimos um bico e o mundo ganhou novos horizontes. Íamos para uma feira de bacana, alguns carregavam sacola para as madames e outros olhavam os carros, e com isso no fim do dia dava para tirar uma boa caixinha. Era a festa dos Cavaleiros. A parte chata era que muitas vezes eu sentia o olhar de deboche e nojo de algumas madames. Eram mulheres com seus olhos maquiados, as bocas enormes com batons vermelhos, bochechas cheias de ruge, ora vermelha como morango, ora rosa como bonecas de porcelana, e o rosto chegava ser repuxado de tanta plástica!!
- Ah, tadinha dessas crianças, qual será o futuro desse garoto? Dá uma moeda, Matilde, deve até passar fome.
Eu sorria, um sorriso falso, que ia até as orelhas, mostrando todos os dentes, e pensava:
- Serei rico e presidente, enche meu bolso de grana e me deixa contente.
As mulheres iam embora, outras vinham, mas pareciam ter um texto decorado, sempre a mesma coisa. E eu pensava: Que povinho sem imaginação! Antes de ir para casa a Doceria da Jaci era o ponto de parada. Nada de gastar tudo! Mas os olhos se enchiam. Estou no paraíso, meu Deus! Chocolates (os caseiros da Jaci eram os melhores do mundo), doces, balas, pirulitos, salgadinhos, maria-mole, suspiros, meus vermes se atiçavam e a barriga chega doía. Dura escolha!
- Minha mãe mandou eu escolher esse daqui, mas como eu sou teimoso escolho esse daqui.
Um doce de abóbora e um suspiro (eram meus prediletos), um pouco de bala para os manos. Feita as compras, casa é a próxima parada!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Doce esmeralda

O sono lhe cobre o rosto
Desfigurado sobre o encosto
Jaz em paz na plenitude
A beleza que lhe foi virtude
Leva contigo na caixinha
As alegrias de menina
Os sonhos de mocinha
A tristeza que teve em vida

Não conheceste o verdadeiro amor
A pureza de um sonhador

Dorme em paz, minha esmeralda
Leva contigo minh’alma
Que teu espírito não possa ver
A crueldade que posso descrever
Digo a parte bonita
Vai em paz, pobre menina.

Quando as palavras decidem o destino...

A história de Raquel

Foi numa tarde de chuva, Raquel se drogou ao máximo numa boca qualquer e apareceu desnorteada, vinha andando pelas vielas como se fosse um zumbi com olhos arregalados.
Ela vinha batendo em todos os portões, chamando a atenção de todos, parecia mesmo que o seu desejo era que todos ouvissem suas declarações. E num grito, assim, de repente, ela disse que não queria mais viver... Meio chorosa começou a soltar palavras de rancor, ódio e arrependimento...

- De que vale essa vida maldita, eu não tenho família, minha mãe é uma vagabunda, meu pai, um pobre bêbado, desgraçado por suas fraquezas, e o dinheiro que tanto desejei, de que vale aqui, se eu não posso sair desse mundinho pobre, essa vida miserável, com tanto esgoto, sujeira, rodeada pela pobreza, eu canseiiiiiii...

E nisso, já gritava aos quatro ventos para quem quisesse ouvir, atiçando a curiosidade da vizinhança.
-... Cansei mundo ingrato, essa droga não me dá o alívio que preciso, esse efeito curto, eu tenho tudo, mas na verdade sei que não tenho nada, ninguém tem coragem de chegar perto de mim, vocês têm medo do louco do Joe, vocês são todos covardes, também foram comprados por ele, me chamam de vendida pelas costas, fazem fuxico da minha vida, mas são todos iguais, pobres, coitados, um bando de Zé povinho covarde!


Raquel desabafava suas angústias. Nunca pensei que ela fosse falar assim do Big-Joe, ele deve tê-la sacaneado muito para despertar aquela ira toda, falava sem parar, entre o choro e os soluços, como uma criança quando leva aquela surra de marcar as costas. Mas a notícia de sua loucura corria feito vento, e os informantes de Joe logo foram soprar no ouvido dele.

- Joe domina a todos. Vocês queriam um rei, eis o rei, seus miseráveis, e eu sou a vadia que aceita tudo em troca das jóias roubadas dele, e todos sabem, não é? Sabem! Condenam e nada fazem a não ser fofocas, sabem também que ele é o homem mais procurado do Brasil? Não? Não sabiam?! Ora, oras, quem poderia ter a maravilhosa idéia de roubar o Banco Central? Que caras são essas? Então não sabem do assalto mais famoso e misterioso do ano, idiotas! Foi o Joe, ele planejou tudo, e ficou com toda aquela grana também. Pouco? Vocês acham pouco? Ele é o mandante dos assassinatos de alguns donos de boca da parte baixa. É isso aí, ninguém compete com o Grande Joe...

Raíssa, uma amiga de Raquel, veio correndo e tentou se aproximar dela.
- Cala a boca Raquel, você está louca, quer morrer, é? Por que você está dizendo esse monte de loucuras?
- Não são loucuras, Big-Joe é um monstro, ele é muito mau, ahahaha, ele é um monstro!! Ela ria feito louca, e isso assustava algumas pessoas.
- Monstro ou não, demorou para você descobrir isso, depois de tudo que ele já te deu e fez por você.
-De que vale tudo aquilo? Ele me comprou sim! Eu queria ser rica, ter tudo, como uma princesa, mas agora o que sou? Graças a toda a riqueza podre, o pouco que eu tinha em casa se explodiu, foi tudo para os ares, meus pais se acabaram, por minha culpa, minha família virou um estilhaço de vidro. O Joe também é culpado, ele é o maior culpado, e eu sou uma vagabunda mesmo!

Nesse momento, as duas já estavam sentadas na calçada...
-Se ele ficar sabendo de tudo isso, ele vai te matar, amiga!
- Ele já deve saber...
Ouviu-se um tiro ensurdecedor, todos correram para ver de onde vinha, e era da casa de Raquel. Seus olhos voltaram a ficar arregalados, então...
- Paaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Ela saiu correndo, tropeçando pela rua esburacada. O pai em desespero havia dado um tiro no ouvido. Tanta desgraça ao mesmo tempo, desilusão, cansaço, fraqueza espiritual, ele preferiu a morte a ver o final de sua única filha.

Big-Joe nunca deixou nenhuma traição barata. O que Raquel fez era o mesmo que encomendar o próprio caixão. Ela também sabia que após tudo isso não veria o Sol por muitos dias. Até pediram que ela fugisse para bem longe, talvez outro Estado, mas ela não quis, e não era porque se achava forte o suficiente, era porque suas esperanças já haviam acabado.

Raquel foi vista apenas nas duas semanas seguintes, depois sumiu do mapa. Chegaram a procurá-la, uma tia veio de longe, mas foi impossível. Delegacias, hospitais, IML. Todos tinham certeza de quem era o responsável por esse sumiço. A polícia começou as investigações, mas ninguém se atreveria a desafiá-lo.
Passaram-se três meses, houve uma denúncia anônima. O corpo de Raquel poderia ser encontrado.


Ah, leitor! Não sabes como é difícil relembrar esse dia, os rastros da morte são muito feios. A crueldade como o corpo dela foi encontrado, enterrado bem abaixo do lixão nas redondezas. Ela teve a língua cortada, foi esfaqueada, degolada, o corpo já estava em decomposição, como podem imaginar. Foi levada para o IML, para ser reconhecida pela família, e depois teve o enterro para encerrar de vez sua estadia na terra.

Essa era a lição que os poderosos tinham como costume dar a todos que cometessem o pecado da traição. Big-Joe sempre dizia que, em terra de leões, gatinho não mia. Cagüeta, traíra, língua solta, dedo-duro, como você entender melhor, tem óbito assinado à mão pelos encarregados da morte.
A lei do cão é essa, e não adianta fugir quando se está envolvido por completo. É muito difícil acreditar que tudo isso acontece assim, não é? Mais difícil ainda é sobreviver dentro dessas histórias. As pessoas são sórdidas, fingem não ver para amenizar suas dores, fingem não entender para não atormentar os pensamentos. Essa foi a história de Raquel.

Eu parei em frente ao espelho, naquele mesmo dia em que vi o caixão de Raquel descer no terrível buraco do São Luís. Ao fixar meus olhos em minha imagem ainda atordoada pelo acontecido, vi se transformar no reflexo de Raquel; sorri ao ver seus olhos brilhantes de menina mimada; verdes como esmeraldas, seu sorriso maroto de criança se tornando mulher, mas em seguida vieram as lágrimas, ao ver o mesmo rosto transfigurado, destruído pela cruel morte. (sim, eu também vi o corpo quando foi retirado do lixão) Não tinha mesmo de quem esconder as lágrimas, sozinho dentro do banheiro, e chorei muito.
Sempre soube que ela jamais seria minha, mas desejava que conseguisse ser feliz, que saísse daquela vida que levava, achasse um homem rico, como sempre sonhou, mas que quisesse seu bem, acima de tudo.

O destino traz nossa sorte, porque ninguém escolhe onde nascer, mas quem escreve a maior parte do destino somos nós mesmos. Às vezes, não nos importando com pequenos erros, provocamos erros maiores, que depois não podem ser apagados. Mais uma noite terrível foi aquela, e sua face jamais sairá de minha memória.